

2025-08-06
Por Maria Palmeiro Ribeiro, Juliano Ventura
Debater políticas públicas olhando apenas para dentro e para os problemas específicos de Portugal conduz frequentemente a discussões reféns de agendas ideológicas ou detalhes secundários, resultando em debates pouco consequentes e sem ímpeto reformista e ambicioso.
Nesta série de artigos "Políticas Liberais em Ação", propomos olhar além-fronteiras, através de artigos curtos, identificando casos concretos e bem-sucedidos de inspiração liberal implementados por outros países europeus. De forma sucinta, explicamos e analisamos cada caso. O objetivo? Trazer inspiração prática para transformar positivamente a realidade portuguesa.
Em Portugal, milhares de jovens saem da escola sem perspetivas claras de trabalho, enquanto muitas empresas lutam para encontrar técnicos qualificados. Este desajuste entre o sistema educativo e as necessidades do mercado é um problema estrutural que continua por resolver.
A Alemanha apresenta uma solução eficaz: o ensino vocacional dual. Combinando o ensino tradicional nas escolas com uma formação prática nas empresas, este modelo tem ajudado a reduzir o desemprego jovem, a formar profissionais altamente qualificados e a reforçar a competitividade da economia.
A Solução Alemã: O Modelo Dual de Ensino Vocacional
A base do sucesso alemão na formação profissional é o modelo dual. Este modelo combina formação prática remunerada em empresas com aulas teóricas em escolas profissionais ou instituições credenciadas. Cerca de dois terços do tempo dos alunos é passado numa empresa, onde contactam diariamente com processos, ferramentas e culturas de trabalho reais, sendo o restante tempo dedicado à componente escolar (Berufsschule). Este sistema permite que os jovens adquiram experiência concreta no mercado de trabalho enquanto aprendem.
Este modelo vai além de simples estágios: os jovens assinam contratos de aprendizagem, recebem salários que aumentam ao longo do curso e, no final, obtêm uma qualificação profissional reconhecida a nível nacional. Em muitos casos, terminam o percurso já com uma proposta de emprego da própria empresa onde se formaram.
As empresas participam voluntariamente, investindo em média 15.300 euros por formando por ano - dois terços do custo total do sistema [1]. Embora seja um investimento significativo, as empresas colhem benefícios imediatos e estratégicos: conseguem formar profissionais adaptados às suas necessidades específicas, reduzindo custos futuros com recrutamento e integração, e garantem um pipeline constante de talentos qualificados. O Estado, por sua vez, beneficia com a redução da pressão orçamental sobre o sistema educativo, ao mesmo tempo que garante oportunidades para os jovens e a existência de uma mão de obra mais qualificada e empregável. Além disso, o sistema fortalece a ligação entre educação e mercado de trabalho, garantindo que os currículos estão sempre alinhados às necessidades económicas do país.
O que torna esta política liberal?
O modelo dual alemão é liberal porque promove a autonomia dos jovens e das empresas na formação profissional, descentralizando a educação tradicional e valorizando a iniciativa privada na aprendizagem prática. O Estado cria o quadro legal e facilita a formação, sem a monopolizar, apostando na colaboração voluntária das empresas. Ao reduzir a intervenção estatal direta na execução da formação, este modelo melhora a eficiência e assegura uma maior correspondência entre a oferta formativa e as necessidades do mercado. Esta abordagem promove o mérito e liberdade de escolha, princípios centrais do liberalismo.
Benefícios Comprovados na Alemanha
Ao contrário de outros modelos, como o português, que é maioritariamente teórico e separado do ambiente laboral real, o sistema dual de ensino vocacional permite que os jovens aprendam desde cedo no contexto real da indústria, facilitando a sua entrada no mundo do trabalho. Em 2023, 47% dos alunos do ensino secundário na Alemanha estavam inscritos em cursos do ensino vocacional, e 89% desses optavam pelo sistema dual. Por comparação, apenas 38% dos alunos portugueses seguem o ensino vocacional, e nenhum o faz em regime dual, visto que esta via não está disponível. [2]
O resultado é visível: 92% dos jovens alemães que seguem esta via encontram emprego [3], até três anos após terminarem a formação (ensino secundário e terciário não superior), face a apenas 62% daqueles que concluem o ensino secundário e terciário não superior pela via tradicional. Em Portugal, essa diferença é menos acentuada (72% vs. 63%) [4], o que revela que o valor acrescentado percebido do ensino vocacional é bastante maior na Alemanha do que em Portugal.
A eficácia do sistema também se traduz em estatísticas mais amplas: a Alemanha apresenta sistematicamente uma das taxas de desemprego jovem (na faixa etária entre os 15 e os 24 anos) mais baixas da Europa . Em 2024, essa taxa era de apenas 6,5%, contrastando com os 21,6% registados em Portugal no mesmo grupo etário. [5]

Adaptação ao Contexto Português
Portugal enfrenta hoje dois desafios: um sistema de ensino profissional pouco atrativo e um mercado de trabalho com carência de técnicos qualificados.
A adoção de um sistema que combine educação e experiência profissional, com currículos mais flexíveis e uma articulação mais significativa com as empresas, permitiria melhorar a empregabilidade dos jovens e aumentar a produtividade das empresas.
Para que isso aconteça, seria necessário criar um quadro legal que regule e valorize a formação em contexto de trabalho, incentivar a participação das empresas, por exemplo, através de reconhecimento público, apoio logístico e simplificação administrativa, e garantir uma coordenação eficaz entre escolas, IEFP e o tecido empresarial. Esta abordagem promoveria a autonomia, o mérito e a utilidade prática, em vez de caminhos formativos com bases excessivamente teóricas, desligados da realidade laboral.
O essencial
O modelo dual representa uma abordagem liberal centrada na responsabilidade partilhada entre Estado e setor privado. Este é um sistema que valoriza as qualificações práticas, e que demonstra resultados significativos no aumento da empregabilidade dos jovens, fazendo dele um exemplo a seguir por Portugal.
Mais do que uma reforma do ensino profissional, trata-se de alinhar o sistema de educação com a economia real, algo que a Alemanha já provou ser possível e eficaz, com benefícios claros para os jovens, as empresas e o país.
Maria Palmeiro Ribeiro é estudante de Política e Relações Internacionais na University College London (UCL) e realizou este trabalho no âmbito de um estágio no Instituto +Liberdade.
Juliano Ventura é economista e analista do Instituto +Liberdade e do projeto +Factos desde 2022. É co-autor de dois livros da Coleção +Liberdade e de vários estudos.
Referências
[1] "The German Vocational Training System: An Overview". German Missions in the United States. (link).
[2] "Vocational Education Statistics", Eurostat. 2025. (link).
[3] “The Dual System of Vocational Training in Germany", European Comission. (link)
[4] "Employment rates of young people." Eurostat. 2025. (link)
[5] "Unemployment by sex and age." Eurostat. 2025. (link)
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