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2026-06-19

Por Juliano Ventura

Crescimento económico português: uma história mal contada

Portugal tem registado um crescimento económico acima da média da União Europeia, mas será que esta narrativa reflete a realidade e estamos no caminho certo? Por que razão, apesar dos números positivos, muitos portugueses não sentem melhorias no seu dia a dia? 

Neste artigo, desmontamos o crescimento da economia portuguesa, através de vários passos, para entender se estamos a crescer porque somos mais produtivos ou simplesmente porque somos mais e trabalhamos mais. A conclusão é clara: grande parte do aumento da riqueza gerada no país deve-se ao crescimento populacional e ao maior número de horas trabalhadas, e não a ganhos reais de produtividade. Como resultado, a riqueza por hora de trabalho cresce lentamente, limitando a progressão dos salários, competitividade e a convergência efetiva com os países mais desenvolvidos da União Europeia.

1. Economia portuguesa tem crescido mais do que a média da União Europeia?

Nas notícias e no debate público tem sido frequente ouvir que Portugal está entre as economias que mais crescem na UE (União Europeia). A afirmação surge normalmente associada à divulgação de dados trimestrais ou anuais do PIB (Produto Interno Bruto) real, quando as taxas de variação colocam a economia portuguesa acima da média do espaço económico e acima de grande parte das economias do bloco, nomeadamente algumas das economias mais desenvolvidas. 

Mas será que esta narrativa reflete de forma consistente a realidade económica do país, ou resulta sobretudo da divulgação de taxas de crescimento pontuais, relativas a períodos curtos e circunstanciais? 

Analisando a evolução do PIB real entre 2019 e 2025 — ou seja, ajustado à inflação — verifica-se que Portugal registou, ao longo deste período, uma taxa de crescimento acumulado superior à média da União Europeia (+11,4% vs. +7,1%), o 10.º melhor registo entre os 27 Estados-membros.

Apesar de esta evolução ser obviamente positiva, é importante colocá-la em contexto. O PIB é um indicador agregado que depende de dois fatores: a população e a produtividade. Assim, uma economia pode crescer de duas formas: ou porque cada pessoa produz mais, ou porque há um maior número de pessoas na economia. Para avaliar se o crescimento da economia portuguesa é, de facto, motivo de regozijo, é necessário compreender qual destes fatores tem exercido maior influência.

Noutro prisma de análise — que não é o foco deste artigo — importa salientar que é natural que Portugal apresente um crescimento superior ao dos países mais desenvolvidos da UE. Esses países já atingiram níveis elevados de desenvolvimento económico, ou seja, competem num “campeonato” distinto daquele em que Portugal se encontra. Uma comparação mais adequada deve ser feita com países que, tal como Portugal, se situam abaixo da média da UE em termos de riqueza criada por habitante em paridades de poder de compra. [1] Nessa perspetiva, o desempenho português revela-se menos animador, já que muitos desses países, como o Chipre, a Croácia, a Polónia, a Bulgária, a Lituânia e a Eslovénia, registaram taxas de crescimento superiores às de Portugal no mesmo período. Vale ainda a pena destacar que a maioria destes países se localiza na Europa de Leste e têm enfrentado de forma mais intensa os efeitos negativos da guerra na Ucrânia.

Importa ainda reconhecer que parte do desempenho recente assentou em fatores excecionais e dificilmente repetíveis. O PRR (Plano de Recuperação e Resiliência), integrado num vasto programa europeu de recuperação pós-pandemia que beneficiou todos os estados-membros da UE — com maior impacto relativo nos países menos desenvolvidos — representou uma injeção extraordinária de recursos públicos na economia, estimulando o investimento e dinamizando a atividade económica num curto espaço de tempo. Esse efeito é, por natureza, temporário e não constitui uma fonte permanente de crescimento. Paralelamente, o turismo registou uma recuperação particularmente intensa no pós-pandemia, beneficiando de uma procura internacional reprimida e de uma perceção de Portugal como destino seguro e estável. Este impulso também dificilmente será replicável com a mesma magnitude nos próximos anos.

Ainda sob outro prisma de análise — que também não é o foco deste artigo — importa notar que a UE não se destaca propriamente pelo forte crescimento económico, especialmente quando comparada com os outros grandes blocos económicos, os EUA e a China. O pulmão económico europeu — a Alemanha — está praticamente estagnado desde 2019 e isso impacta grande parte do tecido económico europeu. Por esse motivo, um crescimento económico português acima média comunitária poderá não ser por si só motivo de celebração. É recomendada a leitura do artigo “Alemanha em Ponto Morto: Impacto na UE e riscos para Portugal” do Instituto Mais Liberdade.

 

2. A riqueza criada por habitante cresceu da mesma forma?

Ao dividir o PIB pela população, obtemos o PIB per capita, que reflete a riqueza média gerada por habitante. Se o crescimento da economia portuguesa não estiver associado a um aumento da população residente, então o PIB per capita terá evoluído ao mesmo nível. Mas será que isso aconteceu?

Não. Entre 2019 e 2025, o PIB real per capita em Portugal cresceu 6,7%, menos 4,7 pontos percentuais do que o crescimento do PIB real no mesmo período. Na média da União Europeia, o PIB per capita aumentou 5,7%, também abaixo do crescimento do PIB agregado, mas com um diferencial bastante mais reduzido (-1,4 pontos percentuais). Assim, embora a economia portuguesa no seu conjunto tenha crescido 4,3 pontos percentuais acima da média da UE, a riqueza média gerada por habitante aumentou apenas um ponto percentual acima da média comunitária — menos de um quarto. 

Para além disso, Portugal baixa algumas posições no ranking da UE, ao passar do 10.º maior crescimento no PIB para o 16.º posto no PIB per capita, sendo ultrapassado pela Grécia, Roménia, Letónia, Hungria, Eslováquia e Itália. Nesta nova classificação, entre as “economias do nosso campeonato”, apenas a Espanha, a Chéquia e a Estónia tiveram um pior desempenho.
 

A conclusão que se pode tirar do quadro anterior é que uma grande parte dos países da UE, especialmente os países mais desenvolvidos, e o espaço económico como um todo inflacionaram o crescimento das suas economias através do crescimento populacional. Portugal é um dos países onde esse efeito é especialmente notório.

De facto, a maior parte dos países da UE registou um elevado crescimento populacional, incluindo Portugal que surge com o 7.º maior aumento. Entre 2019 e 2025, a população residente em Portugal aumentou +4,0%, mais do que o quádruplo do que se registou em média na UE (+0,9%). Por outro lado, em nove países do “campeonato em que Portugal joga”, nomeadamente Polónia, Roménia ou Itália, houve mesmo decréscimo populacional, impactando negativamente o crescimento das suas economias.
 

Estes números relativos à evolução da população portuguesa já são por si só relevantes para o que é discutido neste artigo, mas provavelmente ainda serão revistos. Há alguns meses, a AIMA (Agência para a Integração, Migrações e Asilo) corrigiu em alta o número de cidadãos estrangeiros em Portugal [2], algo que ainda não se reflete nestes números do Eurostat. Essa revisão e, possivelmente outras revisões, irão amplificar ainda mais o que é discutido neste artigo, aumentando ainda mais o peso do crescimento populacional no crescimento da economia portuguesa e reduzindo o PIB per capita.

O crescimento populacional registado em Portugal resulta claramente do saldo migratório positivo; sem imigração, o país teria mesmo assistido a uma diminuição da população. Enquanto em 2019 residiam em Portugal menos de 600 mil cidadãos estrangeiros, no segundo semestre de 2024 esse número já ultrapassava os 1,5 milhões. Sem este contributo migratório, a população residente teria diminuído em cerca de meio milhão de habitantes no mesmo período.

 

3. E se analisarmos a riqueza por pessoa ativa no mercado de trabalho?

A partir daqui, a análise torna-se mais exigente. Dividir o total da riqueza produzida no país por toda a população — incluindo pensionistas ou crianças — não permite aferir quanto produz, em média, cada pessoa que está efetivamente envolvida na criação de riqueza. É neste contexto que ganha relevância a riqueza média gerada por cada pessoa ativa no mercado de trabalho, isto é, por cada indivíduo entre os 20 e os 64 anos que esteja empregado, ou desempregado mas disponível para trabalhar. Este indicador pode ser calculado dividindo o PIB pelo número de pessoas ativas, constituindo uma aproximação da produtividade de cada pessoa envolvida no processo produtivo.

Este indicador revela um ritmo de crescimento ainda mais moderado em Portugal: menos 2,9 pontos percentuais face ao crescimento do PIB per capita. Embora uma dinâmica semelhante se observe, em média, na UE, o impacto foi menos acentuado, o que faz com que Portugal acabe por ser ultrapassado pela média comunitária neste indicador. Se a riqueza gerada por habitante em Portugal tinha aumentado um ponto percentual acima da média da UE (+6,7% vs. +5,7%), quando analisamos a riqueza produzida por cada pessoa envolvida no processo produtivo o diferencial torna-se negativo em 0,5 pontos percentuais (+3,8% vs. +4,3%). Portugal é 16.º classificado neste indicador.
 

Como já foi referido, a população portuguesa aumentou de forma significativa entre 2019 e 2025, sobretudo devido a um saldo migratório positivo. Portugal recebeu um número elevado de imigrantes, tipicamente mais jovens do que a população portuguesa e maioritariamente em idade ativa. O quadro abaixo ilustra precisamente essa realidade: cerca de 80% da população imigrante encontra-se em idade ativa (20-64 anos), sendo que aproximadamente 60% tem entre 20 e 44 anos. Entre a população portuguesa, em contraste, apenas pouco mais de 55% se encontra em idade ativa.
 

Isto significa que o PIB per capita cresce, em parte, porque o peso da população ativa no total da população é hoje superior ao que era em 2019. Em termos simples, há proporcionalmente mais pessoas em idade de trabalhar — e, portanto, potencialmente a criar riqueza — do que anteriormente. Ao calcular o PIB por pessoa ativa no mercado de trabalho, eliminamos esse efeito demográfico. O que permanece é uma aproximação mais direta da riqueza efetivamente gerada por quem está envolvido no processo produtivo.

 

4. Mas nem todas as pessoas no mercado de trabalho trabalham o mesmo número de horas. Quanto cresceu a riqueza produzida por cada hora de trabalho?

A divisão do total da riqueza produzida no país — o PIB — pelo número de horas trabalhadas é normalmente designada por produtividade do trabalho. Este é, de facto, o indicador mais relevante quando se pretende avaliar o verdadeiro crescimento da capacidade de criação de riqueza de uma economia, uma vez que elimina efeitos demográficos e diferenças associadas ao volume total de trabalho realizado. A questão fundamental passa então a ser esta: estamos, ou não, a produzir mais riqueza por cada hora efetivamente trabalhada?

Entre 2019 e 2025, a riqueza gerada por cada hora trabalhada em Portugal aumentou apenas 1,4%, um valor substancialmente inferior ao crescimento da riqueza por pessoa ativa no mercado de trabalho — menos 2,4 pontos percentuais, ou seja, cerca de um terço do ritmo anteriormente observado. Também na média da UE se verificou uma desaceleração quando se passa da riqueza por pessoa ativa para a produtividade por hora, mas de forma menos acentuada. A riqueza por hora trabalhada cresceu 3,1%, o que representa um diferencial de -1,2 pontos percentuais face ao crescimento da riqueza por pessoa ativa. Neste indicador de produtividade, Portugal passa a apresentar um desempenho muito inferior ao da média comunitária, com um crescimento de menos de metade do registado na UE, sendo o 5.º pior entre os 27 estados-membros.

A diferença entre a evolução da riqueza por pessoa ativa e a produtividade por hora trabalhada explica-se, essencialmente, pelo aumento do volume total de horas trabalhadas na economia. Quando a riqueza gerada por pessoa ativa no mercado de trabalho cresce mais do que a riqueza gerada por hora de trabalho, isso significa que o contributo adicional resulta sobretudo de mais tempo de trabalho realizado em proporção da população ativa — seja porque uma maior proporção da população ativa está empregada, porque cada trabalhador realiza mais horas de trabalho (horas extraordinárias, horários mais longos, acumulação de empregos, etc.), ou por uma combinação destes fatores  — e não de um aumento significativo da eficiência produtiva. Em termos simples, Portugal produziu mais porque trabalhou mais horas no total, mas não porque cada hora de trabalho se tenha tornado substancialmente mais produtiva.

 

5. Porque é que a produtividade não cresce?

O fraco crescimento da produtividade em Portugal não resulta de um único fator isolado, mas antes de um conjunto de características estruturais que se reforçam mutuamente. Desde logo, a estrutura empresarial portuguesa continua fortemente marcada por uma elevada predominância de micro e pequenas empresas. [3] Esta fragmentação limita a capacidade de alcançar economias de escala, reduz o poder de negociação nos mercados internacionais e condiciona o investimento em tecnologia, inovação e capital humano. Empresas de menor dimensão tendem, em média, a apresentar menor intensidade tecnológica e menor incorporação de capital por trabalhador, o que restringe o potencial de ganhos sustentados de produtividade. [4]

Paralelamente, a baixa qualidade das práticas de gestão é também um entrave ao crescimento da produtividade. Vários estudos provam essa relação e Portugal destaca-se negativamente nesse âmbito no contexto internacional [5]. Na mais recente edição do Ranking de Competitividade Internacional do International Institute for Management Development (IMD), Portugal classifica-se apenas na 57.ª posição, entre 70 países, na subcategoria que avalia a qualidade das práticas de gestão. [6]

A isto acresce uma especialização setorial ainda concentrada em atividades de baixo valor acrescentado. O peso significativo e cada vez maior do turismo, da restauração e de diversos serviços pouco intensivos em conhecimento facilita a criação rápida de emprego e contribui para o crescimento do PIB agregado, mas estes setores apresentam, por natureza, ganhos de produtividade mais limitados. Quando uma parte relevante da força de trabalho se encontra alocada a atividades com fraca incorporação tecnológica e reduzida sofisticação produtiva, o crescimento médio da economia tende a ser moderado. [4]

Outro elemento estrutural prende-se com o investimento em capital físico e tecnológico. Apesar de uma recuperação após períodos de contração, o investimento empresarial em Portugal tem sido historicamente volátil e insuficiente para sustentar uma transformação estrutural profunda. A incorporação de maquinaria avançada, automação, digitalização e soluções baseadas em inteligência artificial é desigual, concentrando-se sobretudo em grandes empresas ou em nichos específicos, enquanto uma parte significativa do tecido empresarial permanece pouco capitalizada e tecnologicamente atrasada. [7]

A dimensão do capital humano também desempenha um papel determinante. Embora se tenha verificado uma evolução muito significativa nos níveis de escolaridade das gerações mais jovens, Portugal continua abaixo da média da União Europeia em vários indicadores relativos à qualificação da população adulta. [8] A produtividade depende da complementaridade entre tecnologia e competências: a simples adoção de novas ferramentas não produz efeitos expressivos se a força de trabalho não possuir as qualificações necessárias para as utilizar de forma eficiente. [9]

Por fim, o enquadramento institucional influencia decisivamente as decisões de investimento e a alocação de recursos. A complexidade regulatória, a morosidade judicial, a instabilidade fiscal e determinadas rigidezes no mercado de trabalho aumentam a incerteza e os custos de contexto. Economias mais produtivas tendem a facilitar a mobilidade de capital e trabalho para os setores mais eficientes, promovendo a destruição criativa e a renovação do tecido empresarial. Quando esse processo é lento ou excessivamente oneroso, a economia preserva estruturas pouco produtivas por mais tempo do que seria desejável, travando o ritmo de convergência com as economias mais avançadas. [10] [11]

 

6. O que significam estes números para os portugueses e para o país?

Os dados analisados nos pontos anteriores permitem retirar uma conclusão óbvia: o crescimento agregado da economia portuguesa não se traduziu num aumento proporcional da riqueza gerada por cada português nem, sobretudo, da riqueza gerada por cada hora trabalhada.

Entre 2019 e 2025, Portugal cresceu acima da média da União Europeia em termos de PIB agregado. No entanto, quando eliminamos os efeitos demográficos e do volume de horas de trabalho — primeiro dividindo pela população total, depois pela população ativa e, por fim, pelas horas efetivamente trabalhadas — o diferencial favorável vai-se esbatendo até se inverter no indicador mais relevante: a produtividade por hora.
 

Esta evolução tem implicações muito concretas para a vida dos portugueses. No longo prazo, os salários reais só podem crescer de forma sustentada se a produtividade aumentar. [12] Quando cada hora de trabalho gera apenas um acréscimo modesto de riqueza, a margem para aumentos salariais é limitada. Isso ajuda a explicar porque muitos cidadãos não sentem na sua vida quotidiana o dinamismo que os números agregados parecem indicar.

As consequências estendem-se também à sustentabilidade do modelo social. O Estado social europeu — e o português em particular — depende de uma base produtiva sólida para financiar pensões, saúde, educação e prestações sociais. Num contexto de envelhecimento demográfico, pressão crescente sobre o Serviço Nacional de Saúde e necessidades de investimento associadas à transição energética e digital, um crescimento fraco da produtividade gera ainda mais tensão orçamental. Num país com níveis ainda elevados de dívida pública, isso reduz a margem para políticas redistributivas ambiciosas sem aumento da carga fiscal, comprimindo simultaneamente o espaço para redução de impostos sobre famílias e empresas.

Do ponto de vista estratégico de Portugal, a questão central é a convergência real. Desde a adesão à então CEE (Comunidade Económica Europeia), o objetivo de Portugal tem sido aproximar-se da média europeia em termos de geração de riqueza. Porém, quando analisamos a produtividade por hora trabalhada, verifica-se um abrandamento da convergência e mesmo uma ligeira divergência face à média comunitária. Se a produtividade cresce mais lentamente do que na média europeia, o país pode expandir-se em termos absolutos, mas mantém — ou até amplia — o diferencial relativo. A convergência exige que o diferencial no crescimento da produtividade seja consistentemente superior ao da média da União Europeia; caso contrário, o fosso estrutural persiste.

O crescimento populacional recente, impulsionado sobretudo pela imigração, contribuiu positivamente para o PIB agregado e ajudou a mitigar o impacto do envelhecimento populacional. Contudo, o seu efeito qualitativo depende da forma como essa força de trabalho é integrada. Se os novos trabalhadores forem maioritariamente absorvidos em setores de baixa produtividade, o impacto será extensivo — mais produção total — mas não intensivo — mais valor por hora. [13] Nesse caso, a economia cresce pelo aumento do volume de trabalho e não por ganhos de eficiência. Até ao momento, os dados sugerem que o contributo tem sido sobretudo de natureza extensiva.

Para além dos efeitos já referidos, o fraco crescimento da produtividade tem outras implicações relevantes. Limita a capacidade das empresas portuguesas competirem internacionalmente em segmentos de maior valor acrescentado, perpetuando uma especialização em atividades menos sofisticadas. Reduz também o potencial de mobilidade social, uma vez que salários mais baixos e margens empresariais mais estreitas restringem oportunidades de progressão. Pode ainda intensificar a emigração de trabalhadores qualificados em busca de melhores remunerações, agravando desequilíbrios estruturais. Adicionalmente, economias com fraca dinâmica produtiva tendem a apresentar menor resiliência a choques externos, sejam eles financeiros, energéticos ou geopolíticos, pois dispõem de menos margem para absorver impactos adversos.

A alternativa passa por um modelo assente em ganhos significativos de produtividade: investimento consistente em inovação, qualificação do capital humano, aumento da escala e sofisticação empresarial, melhoria do enquadramento institucional e uma realocação mais eficiente de recursos para setores com maior potencial de criação de valor. Só um crescimento baseado na geração efetiva de mais riqueza por cada hora trabalhada permitirá assegurar uma convergência real e sustentada com as economias mais avançadas da Europa.

 

Conclusão

A análise do crescimento económico português entre 2019 e 2025 revela que os números agregados do PIB oferecem uma perceção erradamente otimista da realidade. Apesar da economia como um todo ter registado um crescimento superior à média da União Europeia, este avanço deve-se principalmente a fatores extensivos — o aumento populacional, devido à imigração, e o maior número de horas trabalhadas — e não a melhorias significativas de produtividade.

Quando se considera a riqueza gerada por habitante, por pessoa ativa ou por hora de trabalho, verifica-se que o diferencial positivo face à média europeia diminui progressivamente e, no caso da produtividade por hora, chega mesmo a inverter-se. Em termos práticos, Portugal produz mais no total, mas cada hora de trabalho não gera substancialmente mais riqueza. Este padrão reflete limitações estruturais persistentes, como a elevada prevalência de micro e pequenas empresas, a concentração em setores de baixo valor acrescentado, investimentos insuficientes em tecnologia e capital humano, e obstáculos institucionais que dificultam a modernização e a eficiência produtiva.

A situação é ainda mais preocupante porque Portugal beneficiou, nos últimos anos, de circunstâncias particularmente favoráveis e dificilmente repetíveis: o impulso extraordinário do PRR, a recuperação do turismo pós-pandemia e os efeitos indiretos da guerra na Ucrânia sobre os nossos principais concorrentes na Europa de Leste. No entanto, esta oportunidade única não foi aproveitada para promover uma transformação estrutural da economia e Portugal corre o risco de entrar num ciclo negativo de onde será difícil sair: envelhecimento acelerado da população, produtividade estagnada e dependência crescente da imigração apenas para sustentar setores de baixo valor acrescentado.

Sem aumentos consistentes de produtividade, o crescimento do PIB dificilmente se traduzirá em salários reais mais elevados, melhoria da qualidade de vida ou convergência efetiva com os países mais desenvolvidos da UE. Portugal precisa de um crescimento baseado na criação genuína de riqueza, assente em inovação, qualificação da força de trabalho, modernização empresarial e eficiência institucional. Só assim será possível transformar o crescimento quantitativo em verdadeiro desenvolvimento económico.

 


 

[1] Foram consideradas as economias que estiveram sempre abaixo da média da UE entre 2019 e 2024.   

[2] Relatório intercalar: Recuperação de processos pendentes na AIMA - População Estrangeira em Portugal (2025), AIMA. (link)     

[3]  Enterprise statistics by size class and NACE Rev. 2 activity (from 2021 onwards), Eurostat. (link)

[4]  OECD Compendium of Productivity Indicators 2025, OCDE. (link)

[5]  Nick Bloom & Stephen Dorgan & John Dowdy & Tom Rippin & John Van Reenen, 2012. "Management Practices Across Firms and Nations," CEP Reports 17, Centre for Economic Performance, LSE. (link)

[6]  World Competitiveness Ranking 2026, IMD. (link)

[7]  Estudo do Impacto da Economia Digital em Portugal (2025), ACEPI, Going Next, Porto Business School e Innovation X Hub. (link)

[8]  Educational attainment statistics, Eurostat. (link)

[9] Trinh, Hang, (2025). "Educational investment and technology adoption". Social Sciences & Humanities Open. (link)

[10]  OECD Economic Surveys: Portugal 2026, OCDE. (link)

[11]  OECD Economic Surveys: European Union and Euro Area 2025, OCDE. (link)

[12]  OECD Employment Outlook 2024, OCDE. (link)

[13] Devadas, Sharmila, (2017). "Threat or help? : the effects of unskilled immigrant workers on national productivity growth," Research and Policy Briefs 113185, The World Bank. (link)

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