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2026-07-14

Por Lawrence W. Reed

Por que razão a América escolheu a liberdade e a França escolheu o terror?

No dia em que se assinala o aniversário da Tomada da Bastilha, evento que deu início à Revolução Francesa em 1789, o economista e divulgador liberal americano Lawrence W. Reed traça uma comparação entre esse acontecimento histórico e a Revolução Americana de 1776, sugerindo razões para os resultados tão divergentes dessas duas revoluções.

Por que razão a Revolução Americana teve sucesso, enquanto a Revolução Francesa fracassou? É uma excelente pergunta que surge quase sempre que alguém dá uma palestra sobre — um ou ambos — estes acontecimentos incontornáveis. A resposta exige uma viagem pela filosofia, pelo carácter humano, pela religião e pela política.

Primeiro, estabeleçamos a premissa subjacente à própria pergunta.

A Revolução Americana alcançou os objetivos que os seus instigadores pretendiam: a independência da Grã-Bretanha, uma república constitucional e um governo limitado, centrado na defesa da liberdade individual, da iniciativa empresarial e da propriedade. 250 anos depois, continuamos a viver sob esse sistema — e a celebrá-lo.

A Revolução Francesa parecia promissora no início. Fazendo a ponte entre as duas revoluções, o Marquês de La Fayette chegou mesmo a redigir (com a ajuda de Thomas Jefferson) a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, poucos dias antes da Tomada da Bastilha, em julho de 1789. Mas, apenas três anos depois, La Fayette exilava-se de uma Revolução que degenerava em violência e opressão de dimensões cataclísmicas. Em vez de paz e liberdade, a França acolheu a guerra e a ditadura sob Napoleão Bonaparte. Quando este finalmente foi derrotado, o País voltou uma vez mais à monarquia. Acabando sem grande coisa para mostrar da sua aventura sangrenta, os franceses sofreram um número de mortos estimado em trinta a quarenta vezes superior ao da Revolução Americana.

Mas a França não aboliu a escravatura nas suas colónias em 1794? Sim — mas apenas para a restabelecer sob Napoleão oito anos mais tarde. Uma revolução dificilmente pode ser considerada um sucesso se, na sequência de um paroxismo de selvajaria, as suas principais conquistas se evaporam. A triste realidade é que a França passou de uma monarquia para outra, fazendo entre elas um desvio letal por um dos episódios de depravação mais sangrentos da História.
 

A Batalha das Ideias
 

A América beneficiou certamente de mais de um século de «negligência salutar» britânica antes de o Rei Jorge III e o Parlamento terem dado início às suas intromissões maliciosas na década de 1760. Desde o Pacto de Mayflower, em 1620, que as colónias americanas desenvolveram uma firme tradição de autogoverno local, eleição de dirigentes, e participação em júris e assembleias de cidadãos. Os franceses, pelo contrário, vinham vivendo sob uma monarquia absoluta desde tempos imemoriais. Parte do caos que se seguiu à sua Revolução pode certamente ser atribuída à sua falta de experiência política. Suspeito, no entanto, que forças ainda mais determinantes contribuíram para esse resultado.

Entre as diferenças mais importantes entre as duas revoluções estava a filosofia. O que pensavam os revolucionários e os seus simpatizantes na América em 1776 e em França em 1789? Que ideias — e de quem — os motivaram a pegar em armas?

Em muitos aspetos, a resposta resume-se a um confronto entre dois gigantes do Iluminismo: John Locke da Grã-Bretanha (1632–1704) e Jean-Jacques Rousseau de França (1712–1778).
 

Uma ideologia de terror
 

No seu livro de 2007, Liberal Fascism, o comentador Jonah Goldberg apresenta esta observação:

... [O] que verdadeiramente faz da Revolução Francesa a primeira revolução fascista foi o seu esforço para transformar a política numa religião. Nisto, os revolucionários inspiraram-se em Rousseau, cujo conceito de vontade geral divinizava o povo, relegando a pessoa para um plano secundário.

De um ponto de vista filosófico, a Revolução Francesa minou-se a si própria quase desde o início. Na medida em que se inspirou em Rousseau, estava em conflito com a natureza humana tanto quanto com a aristocracia.

Se considerarmos os contrastes acentuados entre os líderes da Revolução Americana e os da Revolução Francesa, é fácil perceber qual dos dois países foi agraciado com maior integridade de carácter. Se França teve um George Washington, esse foi o Marquês de La Fayette — que cedo desertou, escapando por pouco à guilhotina. As outras figuras maiores da Revolução Francesa foram monstros ensanguentados. Embora a guerra, ocasionalmente, tenha revelado o pior de alguns dos seus, a América não teve equivalente aos revolucionários franceses da década de 1790: Robespierre, Babeuf, Saint-Just e Marat. Nem teve um cínico Comité de Salvação Pública a encaminhar milhares para a lâmina nacional.

Imaginamos algum dos 56 signatários da Declaração de Independência a proferir a retórica arrepiante de Louis Antoine de Saint-Just, o braço direito de Robespierre, conhecido como o «Arcanjo do Terror»? Ele declarou:

É preciso punir não só os traidores, mas até mesmo aqueles que são indiferentes; é preciso punir quem quer que seja passivo na república e que nada faça por ela… O barco da Revolução só pode chegar a porto num mar ruborizado por torrentes de sangue… Uma nação só se gera sobre montes de cadáveres.

Quando surgiu resistência à Revolução na região ocidental da França conhecida como Vendeia, Paris enviou tropas para a esmagar. O resultado foi um massacre; pelo menos 170 000 pessoas foram mortas.
 

Por que razão a América seguiu um caminho diferente
 

Será que Washington, Adams ou Franklin teriam permitido tal holocausto? É difícil de imaginar.

É improvável que os franceses fossem, por regra, simplesmente más pessoas, enquanto os americanos fossem uniformemente virtuosos. Mas, nas décadas que antecederam 1776, as colónias americanas estavam embebidas nas correntes morais e religiosas do Grande Despertar, um renascimento cristão que enfatizava a autoavaliação, a responsabilidade pessoal e a moderação.

Os valores protestantes de autoaperfeiçoamento através do trabalho árduo, da iniciativa privada e da poupança ajudaram a moldar o desenvolvimento inicial dos Estados Unidos. Em França, pelo contrário, a Revolução elevou homens que procuravam o poder com o objetivo de refazer a própria sociedade. Esse impulso autoindulgente de remodelar os outros a qualquer custo não se enraizou na América primordial como em França. Os Estados Unidos não conferiram a certos homens o poder de um aparelho de força concentrada e legalizada para depois esperar que se comportassem com moderação ao usá-lo. A América primordial não concebia a ideia de que a sociedade pudesse ser aperfeiçoada através da coerção.

Desde a sua origem, a Revolução Americana teve um âmbito mais restrito do que a Revolução Francesa. Os americanos centraram-se num objetivo sublime, mas comparativamente limitado: a independência do domínio britânico e a restauração da autonomia local. Com efeito, em geral, os Fundadores viam o objetivo da nova nação como tendo um espírito contrarrevolucionário. Ambicionavam os direitos tradicionais dos ingleses — direitos que acreditavam já possuir, mas que haviam sido corroídos pela Coroa e pelo Parlamento.

A Revolução Francesa, por outro lado, almejava objetivos muito mais ambiciosos. Os seus líderes procuravam «reformar» tudo e todos. Os revolucionários de Paris aboliram até o calendário. Os seus descendentes ideológicos no século XX, os Khmers Vermelhos do Camboja, fariam o mesmo, substituindo «1975» por «Ano Zero».

Os revolucionários em França atacaram também o cristianismo, matando padres e saqueando igrejas por todo o País. Consideravam a Igreja Católica um instrumento da tirania real. Nessa apreciação, estavam pelo menos parcialmente corretos. Na América, onde uma grande variedade de denominações florescia, os laços entre a Igreja e o Estado eram muito mais ténues. Os Fundadores nunca viram a necessidade de impor crenças ou subjugar instituições religiosas pela força.

Da sua perspetiva como parlamentar britânico, Edmund Burke aplaudiu o espírito de liberdade que animava a revolta francesa, mas depressa percebeu para onde esta se encaminhava. Os revolucionários, escreveu ele, eram:

… os mais hábeis arquitetos de ruína que jamais existiram no mundo. Neste curto espaço de tempo, derrubaram completamente a sua monarquia, a sua igreja, a sua nobreza, a sua lei, as suas receitas, o seu exército, a sua marinha, o seu comércio, as suas artes e as suas indústrias… [deparamo-nos com o perigo de] uma imitação dos excessos de uma democracia irracional, sem princípios, proscritora, confiscatória, saqueadora, feroz, sangrenta e tirânica.

Para que o leitor não se sinta tentado a descartar Burke como um crítico estrangeiro com preconceitos contra a França, considere o observador francês Joseph de Maistre. Nas suas Considerações sobre a França (1796), obra amplamente considerada uma das análises contemporâneas mais perspicazes da Revolução, de Maistre — apesar da sua hostilidade para com as ideias do Iluminismo — escreveu que:

O que distingue a Revolução e a torna um acontecimento único na história é o facto de ser radicalmente má. Nenhum elemento de bem perturba o olhar do observador; é o mais alto grau de corrupção jamais conhecido; é pura impureza… Para levar a cabo a Revolução Francesa, foi necessário derrubar a religião, ultrajar a moralidade, violar toda a propriedade e cometer todos os crimes. Esta obra diabólica exigiu o recurso a tal número de homens perversos que talvez nunca antes tantos vícios tenham atuado em conjunto para realizar qualquer mal que fosse.

Tanto a Revolução Americana como a Revolução Francesa prometeram «poder ao povo». No final, foi a primeira que cumpriu essa promessa. A segunda gerou muito mais sangue e caos do que liberdade, igualdade ou fraternidade.


Lawrence W. Reed é presidente emérito da Foundation for Economic Education. É licenciado em Economia pelo Grove City College (1975) e mestre em História pela Slippery Rock State University (1978), ambas na Pensilvânia. Possui dois doutoramentos honoris causa, um pela Central Michigan University (Administração Pública, 1993) e outro pela Northwood University (Direito, 2008).

Artigo originalmente publicado pelo American Institute for Economic Research. Tradução: Pedro Almeida Jorge.

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