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2026-06-02

Por Filipe Grilo

A economia do dia a dia: Os princípios fundamentais por detrás das tuas escolhas

A Economia está em todo o lado, mesmo quando não damos por ela. No seu recente livro "É tudo uma questão de Economia" (2026), o professor e investigador Filipe Grilo propõe uma abordagem diferente ao ensino desta disciplina: menos teoria abstrata e mais foco nas decisões concretas que todos tomamos no dia a dia.

No excerto que publicamos de seguida, em exclusivo no nosso site, o autor parte da ideia simples de que a Economia começa nas escolhas individuais, mostrando como conceitos fundamentais, como a escassez, o custo-benefício ou o custo de oportunidade, não são apenas ferramentas académicas, mas instrumentos práticos para tomar melhores decisões.

Na Biblioteca +Liberdade podes também encontrar a introdução e primeiro capítulo completos. E se, após estas leituras, ficares entusiasmado para continuar a tua aprendizagem, inscreve-te no curso exclusivo da Academia +Liberdade, lecionado pelo autor, subordinado ao tema "Economia para Todos"!

Começamos esta jornada contigo como personagem principal da história. Não faria sentido de outra forma. Embora a Economia tenha várias teorias abstratas e até complexas, o que realmente importa é como ela pode ser aplicada ao teu dia a dia para tornar as tuas escolhas mais claras e impactar a tua vida de forma positiva.

Todos os dias fazes escolhas: escolhes o que vestir; o que comer ao pequeno-almoço, ou até se vais tomá-lo; escolhes como responder a uma mensagem, ou se respondes de imediato; escolhes se usas as escadas ou o elevador; escolhes o que fazer durante o intervalo do almoço, ou que tarefas devem ter prioridade no trabalho. E, por vezes, decides até nem pensar demasiado em várias destas decisões.

Passas o dia a tomar decisões, e é aqui que a Economia te ensina o primeiro princípio: o princípio da escassez.

Só fazes escolhas na presença de escassez. Ou seja, só escolhes quando diferentes interesses competem entre si pelo mesmo recurso escasso.

O ar é um exemplo clássico. Normalmente, é um recurso ilimitado e, portanto, não pensas quando respiras, nem fazes escolhas para respirar. Mas já pensaste que também podes precisar de fazer escolhas sobre respirar? Se estiveres debaixo de água, por exemplo, tens de decidir quando subir à superfície para respirar – e isso acontece porque o ar de que dispões fica escasso. Assim, se a escassez determina a existência de escolhas, para entenderes as tuas decisões, é importante perceberes a escassez que enfrentas.

Então, qual é o recurso mais escasso da humanidade? (Antes de responderes, dou-te uma dica: até a pessoa mais rica do mundo o enfrenta.)

Além de ser um recurso irrecuperável – porque está sempre a avançar –, o tempo é o recurso mais escasso porque… vamos todos morrer. Sem o tempo, todas as outras necessidades deixam de existir. Debaixo da terra, nem de ar precisamos.

É por isso que os homens mais ricos do mundo estão a investir fortunas na ciência antienvelhecimento. De Bill Gates a Jeff Bezos, todos querem ter mais tempo. Mesmo que se resolvesse o problema da imortalidade, a irreversibilidade do tempo torna cada momento único e, portanto, escasso. Havendo escassez, mesmo que tivéssemos todo o tempo do mundo, precisaríamos de escolher bem onde gastar cada minuto, porque ele deixa de existir no minuto seguinte. Apesar desta escassez séria, o tempo é um dos recursos mais desbaratados, devido, em grande parte, à falta deste conhecimento. 

Na presença de escassez, somos forçados a fazer escolhas, ou seja, a definir prioridades. Por exemplo, quando dizes que não tens tempo, significa que estás a fazer escolhas sobre como alocar o teu tempo limitado, priorizando umas tarefas em detrimento de outras.

Sabendo, então, que todos os dias enfrentas escassez e que ela molda as tuas escolhas, como é que a Economia te pode ajudar a fazer escolhas melhores?

Para poderes fazer melhores escolhas, apresento-te o segundo princípio económico (que, para mim, é o mais importante): o princípio do custo-benefício. Este princípio ensina-nos que todas as decisões têm custos e benefícios, logo precisam de ser racionalmente avaliadas em função da diferença entre os seus benefícios e os seus custos. Ou seja, devemos identificar o grau de bem-estar que cada decisão nos pode proporcionar.

Os benefícios são as consequências positivas de uma decisão, aquelas que nos trazem prazer, satisfação e, sobretudo, químicos bons para o cérebro. Já os custos são as consequências negativas: podem ser euros a sair da nossa carteira, mas também outras coisas, como stress, tempo, tristeza, raiva – os químicos maus para o nosso cérebro.

Segundo o princípio do custo-benefício, só tomas uma boa decisão se o benefício que retiras for superior ao custo – ou seja, se te trouxer um ganho de bem-estar.

Eu bem sei que este princípio pode parecer bastante intuitivo, mas, quando foi a última vez que o aplicaste conscientemente? Em geral, as pessoas só o usam conscientemente nas grandes decisões da vida que pesam na carteira, como comprar uma casa, mudar de emprego ou ter um filho.

E porque é que o fazemos tão pouco?

Por um lado, há uma confusão entre racionalidade e dinheiro: muitas pessoas pensam que só precisamos de ser racionais quando está em causa dinheiro. O princípio do custo-benefício mostra que isto é falso. Os benefícios e os custos não dizem respeito apenas a dinheiro. Se uma decisão te traz alegria, paz, entusiasmo ou sentido de propósito, esses sentimentos são benefícios e devem entrar explicitamente na balança, ao lado dos custos medidos em tempo, dinheiro ou esforço. Ou seja, ser racional não significa ignorar sentimentos – muito pelo contrário.

Ao treinares a tua voz racional – uma espécie de Grilo Falante (pun intended) –, podes aplicar este processo diariamente, analisando conscientemente os benefícios e os custos de cada decisão. Por outro lado, aplicar este princípio dá trabalho – tem custos. 

É preciso parar, pensar e comparar alternativas. E nem todas as decisões justificam esse esforço: os benefícios de fazer uma análise cuidada nem sempre compensam o tempo e a energia gastos. Mas se habituares o teu cérebro a ouvir essa voz racional com mais frequência, o processo torna-se menos exaustivo e mais automático, permitindo-te tomar melhores decisões, ou seja, decisões que te fazem mais feliz. Além disso, ajuda-te a conhecer melhor as outras pessoas, porque, mesmo que fôssemos todos perfeitamente racionais, como não pensamos da mesma forma, não tomaríamos as mesmas decisões.

Pensemos agora em decisões de consumo. Porque é que compras determinado produto? Seguindo o princípio do custo-benefício, compras porque o benefício de consumir esse produto é superior ao custo. E qual é o custo? O preço que pagas pelo produto.

Se o preço aumentar, compensa continuar a consumi-lo? Vai depender de pessoa para pessoa, mas provavelmente alguns deixarão de o comprar (ou comprarão menos), dado que o custo passou a ser superior ao benefício. É por isso que os consumidores querem pagar o mínimo possível por um bem – para minimizar o custo e maximizar o bem-estar. Incorrer em custos certos para obter ganhos incertos no futuro é o que chamamos de investimento

Apesar de o nosso cérebro ser extremamente complexo e ter bastante eficácia na comparação entre benefícios e custos, há dois tipos de custos que, no dia a dia, não avaliamos bem e que te vão ajudar a melhorar a tua voz racional. 

No que diz respeito aos custos, podemos dividi-los em dois tipos: explícitos e implícitos. Os custos explícitos são os mais evidentes e, geralmente, têm uma medida monetária associada. Já os custos implícitos são mais subtis, difíceis de identificar e, por isso, tendem a ser negligenciados, especialmente por quem não tem contacto com Economia.

Este tipo de custo implícito, relacionado com o sacrifício de algo, é o mais importante para os economistas e é conhecido como custo de oportunidade. O custo de oportunidade é o valor daquilo a que renunciamos para obter outra coisa. Ou seja, para obtermos algo, temos de abdicar de outra coisa.

É por esta razão que uma pessoa mais rica está mais disposta a pagar por uma refeição cara do que uma pessoa mais pobre. Mesmo que a pessoa rica valorize menos a refeição cara, a pessoa pobre teria de sacrificar alternativas mais importantes para a obter.

Para percebermos a importância do custo de oportunidade e como pode ser negligenciado pelos políticos, vamos analisar o exemplo de uma decisão política. Imagina que estamos numa comissão técnica responsável por avaliar a construção de um aeroporto no Centro do país.

Os benefícios foram todos identificados e incluem, por exemplo, um impacto muito positivo no Turismo do Centro e no aumento das exportações da indústria local. Os custos explícitos – como os custos de construção e os impactos ambientais – também foram contabilizados. Se os benefícios superarem os custos explícitos, a comissão técnica pode concluir que o projeto é vantajoso. Mas será que o governo deve avançar com a construção do aeroporto? Quando chega a hora da decisão, o governo tem de contabilizar também os custos implícitos. E quais seriam esses custos? Considerando o dinheiro que seria investido no aeroporto, não haveria um outro projeto com maior impacto positivo para o país?

Se a resposta for sim, então, ao incluirmos o custo de oportunidade na análise, concluímos que, apesar do impacto positivo que o aeroporto teria, os custos totais (explícitos mais implícitos) superam os benefícios. Desta forma, construir o aeroporto não seria a melhor decisão. Ou seja, o trabalho da comissão é avaliar apenas este projeto, sem considerar o que o governo poderia fazer com o dinheiro noutro contexto. Portanto, mesmo que a comissão conclua que o projeto tem um impacto positivo, pode implicar uma perda de bem-estar para a sociedade, já que o dinheiro aplicado no aeroporto não poderá ser utilizado noutro projeto mais benéfico.

Quando o governo decide dar um apoio à população, devemos sempre perguntar: o que poderia ser feito com esse dinheiro de forma alternativa? O custo de oportunidade é, assim, crucial na avaliação de políticas públicas.

Isto não se aplica apenas ao dinheiro. O tempo, também ele um recurso escasso, pode contar para o cálculo do custo de oportunidade, já que é aqui que este tende a ser mais negligenciado. Por exemplo, quando passas uma hora a trabalhar, poderias estar a utilizar o teu tempo para outro fim: descansar, viajar, estudar. Portanto, essa hora de trabalho tem de compensar verdadeiramente para justificar aquilo de que se abdica.

Dizem os economistas que não há almoços grátis. Mesmo que te ofereça um almoço, estarás a abdicar do teu tempo para almoçar comigo e, portanto, estás a sacrificar algo que talvez te desse mais prazer. É por isso que decisões que parecem gerar poupanças (custos explícitos) podem, na realidade, causar mal-estar, quando percebemos que o tempo perdido não compensa a poupança monetária.

Depois de vermos que a tua voz racional deve considerar os custos implícitos, como o custo de oportunidade, vamos agora explorar outro tipo de custos que, muitas vezes, as pessoas não sabem gerir bem: os custos afundados, ou custos irrecuperáveis.

Antes de definir o conceito, deixa-me perguntar-te o seguinte: já alguma vez estiveste numa sala de cinema a ver um filme muito mau, mas decidiste ficar porque já tinhas pagado o bilhete? Ou talvez tenhas ido a um buffet à discrição e, mesmo já sem apetite, continuaste a comer porque querias “recuperar” o valor da entrada. Pois bem, este tipo de raciocínio é irracional.

À primeira vista, parece que estás a aplicar o princípio do custo-benefício ao comparar os benefícios com os custos. No entanto, tens de considerar também que aqueles custos já não podem ser recuperados: mesmo que o filme seja péssimo, não podes pedir a devolução do bilhete; e, mesmo que já estejas satisfeito, o valor pago pela entrada no buffet não te será devolvido, independentemente da quantidade de comida que consomes.

Como o montante que gastaste já não pode ser recuperado, não implica qualquer alternativa sacrificada naquele momento. Ou seja, o seu custo de oportunidade é nulo. Como tal, racionalmente, o custo afundado não existe e não deve ser considerado na tua tomada de decisão. Aqui entra a parte irracional: estamos sempre a pensar no que já pagámos apesar de isso não fazer sentido.

No exemplo do cinema, a tua decisão deve ser comparar o benefício de continuar a ver o filme com o verdadeiro custo de ficar, que é o tempo perdido. Se há algo mais prazeroso ou produtivo que possas fazer com esse tempo – ou seja, se o custo de oportunidade for superior –, então deves sair do cinema.

Como o princípio do custo-benefício nos ensina que a tomada de decisões é feita comparando os custos com os benefícios, se os manipularmos, é possível influenciar as escolhas de outras pessoas (e, consequentemente, o seu comportamento). Assim, podemos incentivar uma pessoa, ou seja, induzi-la a agir, aumentando os benefícios ou diminuindo os custos de uma determinada ação. Surge, então, o princípio dos incentivos, que nos diz que as pessoas respondem a incentivos.

O princípio dos incentivos também pode ser usado para desincentivar uma ação, através de incentivos negativos e de incentivos positivos.

Por exemplo, sabendo que o tabaco causa muitos malefícios à sociedade, o Estado utiliza vários mecanismos para desincentivar o seu consumo, como, por exemplo, o aumento artificial do seu preço através de impostos. A isto chamamos de incentivo negativo. Neste caso, aumentamos o custo até que este ultrapasse os benefícios, levando as pessoas a deixar de fumar. No caso do incentivo positivo, baixar o preço ou facilitar o acesso às consultas de cessação tabágica permite reduzir os custos para os fumadores tomarem a decisão de deixar de fumar.

Embora o princípio dos incentivos pareça fácil de aplicar, ele pode pregar algumas partidas, sobretudo porque as pessoas valorizam os benefícios e os custos subjetivamente.

Assim, através do princípio dos incentivos, podemos conhecer melhor as pessoas com quem lidamos. Se alguém reage de forma inesperada a um incentivo, significa que avaliou os custos e os benefícios desse incentivo de maneira diferente da nossa. 

Terminamos este capítulo com o princípio mais difícil. A dificuldade do princípio das vantagens comparativas está, mais uma vez, ligada ao conceito de custo de oportunidade.

Apesar de ser um princípio exigente, quando o compreenderes, vais perceber que é um aliado poderoso na orientação da tua carreira. Antes de te explicar o que é este princípio, coloca-te nesta situação: tens duas tarefas para realizar e és o melhor da tua equipa a executá-las. A questão é: deves ser tu a fazer ambas as tarefas?

Antes de responder a esta pergunta, aproveito para clarificar alguns conceitos importantes. Quando digo que és o melhor da tua equipa, refiro-me ao facto de seres mais produtivo ou eficiente do que os teus colegas na execução dessas tarefas. Isto significa que tens uma vantagem absoluta sobre eles em ambas.

Mas há um problema: não consegues fazer ambas as tarefas ao mesmo tempo. Ou seja, enquanto estás a fazer uma tarefa, estás a abdicar de executar a outra. Consequentemente, o custo de oportunidade de fazer uma tarefa é não realizar a outra. É aqui que entra o conceito de vantagem comparativa: mesmo tendo uma vantagem absoluta nas duas tarefas, haverá uma em que te destacas ainda mais em relação aos teus colegas. Se abdicares dessa tarefa para te concentrares na outra, estarás a desperdiçar o teu talento especial.

O princípio das vantagens comparativas diz-nos, então, que devemos especializar-nos nas tarefas cujo custo de oportunidade é menor. Trocando isto por miúdos, quem corre por gosto não cansa. Deves concentrar-te nas tarefas que te custam menos, ou seja, naquelas em que o teu tempo é mais bem aproveitado, minimizando o desperdício de talento. Esta facilidade em realizar uma tarefa pode advir da tua personalidade, das tuas qualificações ou de outros fatores que te tornam mais eficiente.

Portanto, o grande conselho que o princípio das vantagens comparativas te dá é: delega as tarefas nas quais não tens uma vantagem comparativa.

Agora, desafio-te a parares e analisares o teu dia a dia à luz destes princípios!
 

O livro "É Tudo Uma Questão de Economia" encontra-se disponível nas livrarias, na Wook e na editora Ideias de Ler, a quem agradecemos a gentil permissão para a disponibilização da introdução e do primeiro capítulo na nossa Biblioteca.

 


Filipe Grilo é economista, doutorado em Economia pela Universidade do Porto, com especialização em crises financeiras, e investigador. Ao longo de mais de uma década de ensino universitário, trabalhou com públicos muito diferentes – de alunos de Economia e Gestão a estudantes de Jornalismo e Direito –, experiência que moldou a sua forma de explicar temas económicos com clareza e sem complicação. Atualmente, leciona Economia e Finanças em programas de MBA na Porto Business School. Mantém uma presença regular nos media, onde comenta temas da atualidade económica, procurando tornar a Economia mais clara e acessível ao público. É também membro fundador do Instituto +Liberdade.

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