

2026-03-17
Por Juliano Ventura
Debater políticas públicas olhando apenas para dentro e para os problemas específicos de Portugal conduz frequentemente a discussões reféns de agendas ideológicas ou detalhes secundários, resultando em debates pouco consequentes e sem ímpeto reformista e ambicioso.
Nesta série de artigos "Políticas Liberais em Ação", propomos olhar além-fronteiras, através de artigos curtos, identificando casos concretos e bem-sucedidos de inspiração liberal implementados por outros países europeus. De forma sucinta, explicamos e analisamos cada caso. O objetivo? Trazer inspiração prática para transformar positivamente a realidade portuguesa.
Portugal enfrenta desafios persistentes na educação pública. Apesar dos progressos significativos nas últimas décadas — com maior escolarização e redução do abandono escolar — o sistema continua marcado por centralização administrativa, rigidez organizacional e limitada liberdade de escolha para as famílias. Na prática, a maioria dos alunos frequenta a escola atribuída pela área de residência, o que reduz a concorrência entre escolas e limita a adaptação do sistema às necessidades dos estudantes.
Ao mesmo tempo, persistem desigualdades nos resultados educativos consoante o contexto socioeconómico de origem, dificuldades em inovar pedagogicamente e uma perceção crescente de que o sistema responde de forma lenta às mudanças sociais e tecnológicas. Perante estes desafios, torna-se relevante analisar políticas implementadas com sucesso noutros países europeus.
O caso dos Países Baixos oferece um exemplo particularmente interessante. O país desenvolveu ao longo do século XX um sistema educativo que combina financiamento público universal com uma elevada liberdade de escolha por parte das famílias. Trata-se de um modelo que procura conciliar igualdade de acesso com diversidade institucional e autonomia pedagógica.
O Modelo Neerlandês: Financiamento Público com Liberdade de Escolha
O sistema educativo dos Países Baixos baseia-se num princípio fundamental: todas as escolas que cumprem os requisitos legais têm direito ao mesmo financiamento público por aluno, independentemente da sua natureza institucional [1].
Isto significa que tanto escolas públicas como escolas privadas — muitas vezes organizadas por fundações, associações religiosas ou projetos pedagógicos específicos — recebem financiamento estatal equivalente. O financiamento acompanha o aluno, permitindo que as famílias escolham livremente a escola que consideram mais adequada para os seus filhos [2]. Na prática, este mecanismo funciona de forma semelhante a um sistema de vouchers escolares: os recursos públicos são atribuídos por aluno e transferidos para a instituição escolhida pela família, criando incentivos para que as escolas atraiam estudantes através da qualidade do ensino e da diversidade dos seus projetos educativos.
Na prática, a maioria das escolas no país é administrada por entidades privadas sem fins lucrativos (mais de dois terços das escolas [3]), embora maioritariamente financiadas pelo Estado. Estas instituições são conhecidas como “escolas especiais” e podem ter orientações pedagógicas ou filosóficas distintas — por exemplo, escolas protestantes, católicas, humanistas ou baseadas em métodos pedagógicos alternativos [1].
Apesar dessa diversidade institucional, o sistema educativo dos Países Baixos é bastante regulado pelo Estado. Todas as escolas financiadas publicamente devem cumprir os objetivos curriculares nacionais e garantir que os alunos atingem padrões mínimos de aprendizagem definidos pelas autoridades educativas. O ensino inclui obrigatoriamente áreas fundamentais como a língua neerlandesa, matemática, ciências, história e educação cívica, e as escolas são regularmente avaliadas pela inspeção educativa nacional para assegurar a qualidade do ensino [5][3].
Uma característica distintiva do sistema neerlandês é a instituição dos conselhos escolares, órgãos que têm muito mais poder do que as escolas que supervisionam. Os conselhos escolares são responsáveis por garantir a implementação da legislação e das regulamentações dentro das escolas e por contratar professores e outros funcionários. Enquanto no passado as escolas eram geridas principalmente pelas autoridades locais, a governação tem sido cada vez mais descentralizada para conselhos escolares independentes. Os reguladores escolares que compõem os conselhos podem ser voluntários (cidadãos comuns que recebem um honorário) ou profissionais (que recebem um salário) [7].
As escolas com orientação religiosa ou filosófica podem, em alguns casos, estabelecer regras internas relacionadas com a sua identidade institucional — por exemplo, na forma como organizam atividades educativas ou na definição do seu projeto pedagógico. No entanto, essas regras apenas podem ser aplicadas quando são necessárias para preservar os princípios da escola, não podem ser discriminatórias e devem ser aplicadas de forma consistente.
Além disso, a legislação neerlandesa estabelece limites claros para proteger os direitos fundamentais. As escolas não podem impor qualquer requisito relacionado com orientação sexual, raça ou ideologia. Mesmo nas escolas privadas financiadas, não é permitido discriminar alunos ou professores com base em características pessoais. Estas instituições não podem, por exemplo, recusar estudantes ou despedir docentes por serem homossexuais, e qualquer caso de discriminação pode ser analisado pelo Netherlands Institute for Human Rights [1].
O que torna esta política liberal?
O modelo neerlandês é considerado liberal porque substitui um sistema fortemente centralizado por um modelo baseado na escolha individual e na concorrência regulada entre escolas. Em vez de o Estado determinar de forma rígida onde cada aluno deve estudar, a decisão é transferida para as famílias, que podem escolher livremente a escola que consideram mais adequada. Esta liberdade cria incentivos claros: escolas que oferecem melhor ensino, melhor organização ou melhores condições tendem a atrair mais alunos e, consequentemente, mais financiamento público.
Ao mesmo tempo, o financiamento público universal garante que essa liberdade não depende dos rendimentos das famílias. Todos os alunos têm acesso ao mesmo financiamento estatal, preservando o princípio da igualdade de oportunidades.
O Estado continua a desempenhar um papel essencial como regulador e garante da universalidade do sistema. Todas as escolas financiadas com recursos públicos são obrigadas a cumprir requisitos de qualidade e a seguir o currículo nacional, assegurando que os alunos recebem uma formação comparável independentemente da escola frequentada.
Não se trata, portanto, de privatizar a educação, mas sim de introduzir mecanismos de escolha e incentivos num sistema público, permitindo que diferentes modelos educativos coexistam dentro de um enquadramento comum. O objetivo não é substituir o ensino público tradicional, mas criar um ambiente em que as escolas tenham incentivos para inovar, os recursos sejam utilizados com maior eficiência, as famílias tenham um papel mais ativo nas decisões educativas e o sistema consiga adaptar-se melhor às necessidades dos alunos. Este equilíbrio entre liberdade individual e intervenção estatal caracteriza uma abordagem liberal moderada à organização da educação.
Resultados Visíveis: Diversidade, Qualidade e Satisfação
O sistema educativo dos Países Baixos é hoje um dos mais diversos da Europa. Mais de dois terços dos alunos frequentam escolas administradas por entidades privadas financiadas pelo Estado, enquanto os restantes frequentam escolas públicas tradicionais. Esta coexistência de diferentes modelos institucionais permite uma grande variedade de projetos educativos, ao contrário do que acontece em Portugal.
A autonomia escolar é obviamente elevada: mais de 90% das decisões no 3.º ciclo do ensino básico são tomadas ao nível da própria escola, a proporção mais alta entre todos os países da OCDE [3]. Em contraste, em Portugal, apenas cerca de 15% das decisões relevantes são tomadas pelas escolas, sendo a grande maioria definidas centralmente pelo Ministério da Educação [10].
Vários estudos internacionais destacam os benefícios do sistema neerlandês, evidenciando resultados académicos sólidos. A elevada qualidade geral do ensino é reconhecida pela OCDE, que atribui este desempenho, em grande parte, à “ampla diversidade de projetos educativos, à intensa concorrência entre escolas e ao elevado grau de autonomia conferido aos conselhos escolares, aos diretores e aos professores” [10][12].
Nos testes PISA 2022, os estudantes neerlandeses de 15 anos alcançaram 493 pontos em matemática, a sexta melhor pontuação entre os países da OCDE, acima da média da organização de 472 pontos. Em ciências, também ficaram acima da média da OCDE (488 pontos vs. 485 pontos). Em leitura, porém, ficaram ligeiramente abaixo, obtendo 459 pontos face a 476 da OCDE. Portugal registou 472 pontos em matemática, 484 em ciências e 477 em leitura, evidenciando desempenhos próximos da média internacional, inferiores aos neerlandeses em matemática e ciências e superiores em leitura. Cerca de 19% dos estudantes neerlandeses registaram uma performance de topo em pelo menos uma das três áreas analisadas, uma das percentagens mais elevadas na OCDE e quase o dobro da registada em Portugal (10%) [13].
No que diz respeito à equidade educativa, nos Países Baixos 5,7% dos estudantes do quintil socioeconomicamente mais desfavorecido conseguiram atingir um desempenho de topo em matemática, valor superior à média da OCDE (2,6 %) e muito acima do registado em Portugal (1,1 %). Em leitura, a força da relação entre desempenho e estatuto socioeconómico é ligeiramente menor nos Países Baixos do que na média da OCDE e em Portugal, indicando uma menor influência do contexto socioeconómico sobre os resultados. Em ciências ocorre o inverso: a relação é um pouco mais forte nos Países Baixos do que na média da OCDE e em Portugal, embora, em ambos os casos, os valores dos Países Baixos e de Portugal se mantenham muito próximos da média internacional, sugerindo níveis relativamente comparáveis de equidade nesse domínio [14]. Por outro lado, nos Países Baixos, os estudantes socioeconomicamente favorecidos (os 25 % com melhor estatuto socioeconómico) superaram os estudantes desfavorecidos (os 25% com pior estatuto socioeconómico) em 106 pontos em matemática. Esta diferença é maior do que a média observada entre estes dois grupos na média da OCDE (93 pontos) e em Portugal (101 pontos), evidenciando que ainda há desafios por resolver nesta matéria [15] [16].
Convém notar que os resultados dos estudantes neerlandeses registaram uma queda em relação à edição anterior dos testes PISA. No entanto, esta tendência foi observada em quase todos os países desenvolvidos, incluindo Portugal, e os resultados dos Países Baixos continuam a ser relativamente sólidos e acima da média da OCDE no cômputo geral.
Esta diversidade de projetos educativos e os resultados alcançados contribuem para níveis elevados de satisfação com o sistema de ensino. Nos Países Baixos, cerca de 71% da população declara estar satisfeita com o sistema de educação, a quinta maior proporção entre os países da OCDE. Em Portugal, por contraste, apenas 50% da população se mostra satisfeita, refletindo, em parte, as limitações do sistema em termos de diversidade, autonomia escolar e capacidade de resposta às necessidades das famílias [17].

Adaptação ao Contexto Português
A adoção de um modelo educativo inspirado no sistema neerlandês em Portugal exigiria mudanças institucionais profundas, embora não implicasse, necessariamente, a privatização da educação. Um dos elementos centrais de tal reforma seria a implementação de um financiamento público por aluno que acompanhasse a escolha da família, permitindo que os recursos seguissem o estudante para a escola selecionada, seja ela pública ou privada financiada pelo Estado. Esta medida criaria incentivos claros para que as escolas melhorassem continuamente a qualidade do ensino e a experiência educativa, já que o financiamento estaria diretamente ligado à procura e à satisfação das famílias.
Outro aspeto fundamental seria conferir maior autonomia às escolas, tanto públicas como privadas financiadas pelo Estado, permitindo-lhes organizar a gestão pedagógica e administrativa de forma mais flexível, desenvolver projetos educativos diferenciados e adaptar os métodos de ensino às necessidades concretas dos alunos. Esta autonomia poderia ser complementada pela criação de novos projetos educativos geridos por fundações, cooperativas ou associações, aumentando a diversidade de ofertas e estimulando a inovação pedagógica no sistema.
Apesar desta flexibilidade e diversidade, seria essencial manter um currículo nacional comum e mecanismos rigorosos de avaliação e regulação, garantindo que todas as escolas, independentemente do modelo de gestão, cumpram padrões mínimos de qualidade e assegurem aprendizagens comparáveis. Desta forma, seria possível conciliar liberdade de escolha e inovação pedagógica com equidade e responsabilidade social, evitando que a diversidade institucional se traduza em desigualdade de oportunidades.
Num modelo deste tipo, o Estado continuaria a desempenhar um papel central como garante do acesso universal e gratuito à educação, assegurando que todos os alunos, independentemente do seu contexto socioeconómico, tenham acesso a ensino de qualidade. Ao mesmo tempo, a introdução de liberdade de escolha e concorrência regulada entre escolas poderia promover uma maior responsabilidade das instituições educativas perante os alunos e as famílias, incentivando melhorias contínuas e a criação de um ambiente educativo mais dinâmico, diverso e adaptado às necessidades da sociedade contemporânea.
O essencial
O sistema educativo dos Países Baixos demonstra que é possível conciliar liberdade individual com equidade no acesso à educação. Ao combinar financiamento público universal com pluralismo institucional e liberdade de escolha, o país construiu um modelo educativo que promove diversidade, autonomia e responsabilidade.
Para Portugal, a adaptação de alguns destes princípios poderia representar uma oportunidade para modernizar o sistema educativo, tornando-o mais flexível, inovador e centrado nas necessidades dos alunos.
Mais do que substituir o ensino público tradicional, uma reforma inspirada neste modelo procuraria criar um sistema em que diferentes projetos educativos possam coexistir dentro de um enquadramento comum, garantindo simultaneamente liberdade de escolha, qualidade e acesso universal.
Juliano Ventura é economista e analista do Instituto +Liberdade e do projeto +Factos desde 2022. É co-autor de dois livros da Coleção +Liberdade e de vários estudos.
Referências
[1] "Public-authority and private schools". Government of the Netherlands. (link).
[2] "Education at a Glance 2025: Netherlands". OECD. 2025. (link).
[3] "OECD Review of Digital Education Policy in the Netherlands". OECD. 2025. (link).
[4] "Subjects and attainment targets in primary education". Government of the Netherlands. (link).
[5] “School choice and school vouchers: An OECD perspective”. OECD. 2017. (link).
[6] "Education Policy Outlook in Portugal". OECD. 2020. (link).
[7] Himmler, Oliver. "The Effects of School Choice on Academic Achievement in the Netherlands". Goettingen University. (link).
[8] "PISA 2022 Results (Volume I)". OECD. 2023. (link).
[9] "Education GPS". OECD. (link).
[10] "PISA 2022 Results (Volume I and II) - Country Notes: Netherlands". OECD. 2023. (link).
[11] "PISA 2022 Results (Volume I and II) - Country Notes: Portugal". OECD. 2023. (link).
[12] "Government at a Glance 2025". OECD. 2025. (link).
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