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2026-04-14

Por Vincent Geloso

Um obituário às ideias catastrofistas de Paul Ehrlich

Neste artigo, o economista canadiano Vincent Geloso discute o legado do recém-falecido biólogo americano Paul Ehrlich, defendendo que, ainda que as previsões de Ehrlich não se tenham verificado, as suas ideias tiveram uma influência nefasta, que felizmente tem vindo a ser rejeitada até pelos seus aliados intelectuais.

Paul Ehrlich (1932-2026), famoso biólogo, faleceu recentemente, aos 93 anos. Ehrlich ficou famoso na década de 1960 como autor de um livro que obteve grande repercussão junto do público, The Population Bomb [“A Bomba Populacional”], tornando-se convidado habitual em talk shows noturnos e alvo de frequentes debates em todos os principais jornais. O, ainda mais famoso, apresentador televisivo Johnny Carson, ao entrevistá-lo em 1980 — mais de uma década após a publicação do livro, um sinal do seu impacto duradouro — disse que Ehrlich havia gerado «mais correspondência do que qualquer outro convidado que já tivemos no programa.» Ao todo, Ehrlich apareceu 25 vezes num dos programas de entrevistas mais famosos da televisão.

A Bomba Populacional apareceu na altura certa: o crescimento económico era então rápido em todo o mundo, bem como o crescimento populacional. Perante recursos finitos, o crescimento populacional (com 3,5 mil milhões de pessoas em 1968) ultrapassaria a produção alimentar e esgotaria as reservas de recursos-chave (como metais, combustíveis fósseis, terras aráveis). Mais tarde ou mais cedo, argumentou Ehrlich, as fomes iriam ocorrer, e com elas um colapso social. Qualquer progresso tecnológico que pudesse ser alcançado apenas atrasaria o inevitável — e apenas de forma trivial.

Ehrlich sugeriu que, para evitar esta reação em cadeia, o crescimento económico teria de abrandar. A sobrepopulação deveria ser travada, desencorajando as famílias numerosas, possivelmente com medidas coercivas de controlo populacional. No entanto, Ehrlich não se ficou por aí. Propôs que a Comissão Federal de Comunicações (FCC) deveria desencorajar os meios de comunicação de retratarem as famílias numerosas de forma positiva. Defendeu também restrições à imigração, pois permitir que os pobres do resto do mundo viessem para a América aceleraria o seu consumo e apressaria o colapso. E argumentou que a ajuda internacional deveria estar vinculada a condições que exigissem que as outras nações abrandassem o crescimento populacional. Todas as suas propostas políticas acabavam por consistir em apelos a maior coerção e maior controlo.

Porém, Ehrlich estava equivocado. Há hoje no planeta mais do dobro de seres humanos do que quando Ehrlich escreveu a sua profecia apocalíptica. Vivemos hoje vidas mais longas, mais saudáveis, mais prósperas e mais seguras num planeta que, em muitas dimensões (mas não em todas), tem ficado mais limpo. Nenhuma das suas previsões extremas se concretizou. As inovações tecnológicas não foram triviais — foram excecionais. A Revolução Verde, as melhorias nos transportes, as melhorias na eficiência energética, todas elas impediram a catástrofe que se previa.

O adversário intelectual de Ehrlich — o economista populacional Julian Simon (1932-1998) — há muito que defendia que os seres humanos eram capazes de gerar crescimento económico e reduzir os seus impactos ambientais, criando e inovando uma saída para estes problemas. Os seres humanos, na visão de Simon, eram O Recurso Supremo [“The Ultimate Resource”]. Em todos os obituários dedicados a Ehrlich, Simon é mencionado pelo seu otimismo “do contra” (muitas vezes rotulado de "cornucopianismo") e por ter apostado nestes resultados contra Ehrlich.

Porém, no meio de todas as comemorações, vindicações e afirmações de que Ehrlich foi meramente “prematuro”, algo tem sido esquecido: Paul Ehrlich saiu derrotado até mesmo no seio do movimento ambientalista que ajudara a impulsionar. As suas visões foram ampla e subtilmente, ainda que nem sempre explicitamente, abandonadas — em favor das de Julian Simon.

Para percebermos porquê, tomemos a premissa explícita que Ehrlich defendia: que os humanos são bocas para alimentar, poluidores e, em última análise, invasores do ecossistema. Por outras palavras, para o biólogo que ele era, os humanos são uma forma de parasita. Se uma população cresce demasiado, a correção terá de vir através da extinção, uma vez que o parasita mata o hospedeiro. O engenho humano desempenha um papel insignificante; na melhor das hipóteses, é trivial. Afinal de contas, um parasita é um parasita. Se o parasita inova, é para se tornar um parasita melhor. Os humanos não são criadores, nem mesmo criaturas iguais às outras, mas sim fardos para o ecossistema.

A partir dessa premissa, segue-se naturalmente que um certo grau de controlo (incluindo coerção) populacional poderia ser justificado. Com efeito, esta visão justifica uma postura normativa que afirma que alguns humanos são dispensáveis ou podem ser sujeitos a coisas que a maioria consideraria (e considerou, quando as propostas de Ehrlich foram aplicadas) moralmente repulsivas.

Em contrapartida, a visão de Simon era a de que os seres humanos não são meramente consumidores. Somos criadores. Com as instituições certas, podemos resolver os problemas ambientais através da inovação. A verdadeira questão não é a população, mas o enquadramento institucional sob o qual as pessoas atuam. De facto, Simon salientava frequentemente que a previsão de Ehrlich poderia vir a concretizar-se precisamente devido às políticas que este propunha. A inovação raramente surge sob coação. A inovação requer ambientes abertos, que a incentivem. Sendo um liberal-libertário, argumentou que os desastres ambientais mais extremos ocorreram em regimes coercivos, como a URSS, a China comunista e a Cuba liderada por Castro. Essa coerção é semelhante em natureza (ainda que não em intenção) à que Ehrlich desejava. Simon argumentou também que, em economias de livre-mercado, sem coerção, surgem melhorias e inovações que resolvem os problemas à medida que estes surgem.

Na opinião de Simon, as instituições são o que mais importa. O conceito é sem dúvida abrangente. Liberais clássicos, conservadores e libertários — mais próximos de Simon — tendem a enfatizar direitos de propriedade seguros, mercados abertos e comércio livre como motores da inovação. Sociais-democratas, centristas e progressistas, por outro lado, costumam usar o termo “instituições” para se referir a um Estado capacitado para regular a resolução problemas. Na visão destes últimos, os mercados por si só não são suficientes. A intervenção governamental, como a tributação da poluição, justifica-se como forma de alterar comportamentos e estimular a inovação, alinhando os incentivos privados com os custos sociais. Neste sentido, o conceito de «instituições» tem significados muito diferentes consoante as perspetivas.

Mas é também aqui que se torna claro que Paul Ehrlich perdeu o debate. Consideremos o caso do imposto sobre o carbono. A sua justificação assenta na ideia de que a tributação da poluição altera comportamentos e incentiva a inovação — encarando os humanos não como parasitas, mas sim como seres que respondem a incentivos. A premissa é a cooperação, não a coerção nascida do pânico da escassez.

Todas estas perspetivas partilham um pressuposto crucial: o de que os seres humanos são capazes de resolver problemas. Os resultados ambientais dependem de incentivos e instituições, não da redução do número de "bocas". Nesse sentido, até os oponentes ideológicos de Simon convergem para uma conclusão comum: os seres humanos não são parasitas, mas sim o recurso supremo.

Não foi sempre assim. Os movimentos ambientais da década de 1940 até à década de 1970 eram muito mais recetivos à visão de Paul Ehrlich. Muitos, tanto à esquerda como à direita, aceitavam a sua premissa central, que durante algum tempo foi dominante. Hoje, não somente é contestada, como foi em grande medida abandonada, mesmo por aqueles que não citam nem simpatizam com Julian Simon.

Esta é a verdadeira derrota de Ehrlich — mesmo onde se poderia pensar que ele tinha mais apoio, perdeu terreno. As suas premissas centrais foram largamente abandonadas por todos, exceto pelos mais extremistas. De certa forma, Ehrlich faleceu muito depois das suas ideias.

E essas ideias eram verdadeiramente horríveis para o bem-estar humano. Não me regozijo com a morte de Ehrlich. No entanto, dançarei sobre o túmulo das suas ideias, e todos deveríamos fazê-lo. E enquanto danço, usarei o meu crachá do "Clube de Fãs de Julian Simon".


Vincent Geloso é Senior Fellow do American Institute for Economic Research (AIER) e Professor Assistente de Economia na George Mason University, tendo um PhD em História Económica pela London School of Economics. Escreve no X com o handle @VincentGeloso.

Artigo originalmente publicado pelo American Institute for Economic Research (AIER).

Tradução e adaptação: Pedro Almeida Jorge.

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