Mais Liberdade
  • Facebook
  • Twitter
  • Youtube
  • Instagram
  • Linkedin

Inflação

John Maynard Keynes

Moeda, Banca e Mercados Financeiros, Excertos e Ensaios, Economia, Nível Introdutório

Português

Diz-se que Lenine terá declarado que a melhor forma de destruir o Sistema Capitalista era corrompendo a moeda. Através de um processo contínuo de inflação, os governos podem confiscar, secretamente e sem serem observados, uma parte importante da riqueza dos seus cidadãos. Com este método, não só confiscam, como confiscam arbitrariamente; e, embora o processo empobreça muitos, a verdade é que enriquece alguns. A percepção deste rearranjo arbitrário de fortunas abala não só a segurança, mas também a confiança das pessoas na equidade da presente distribuição de riqueza. Aqueles a quem o sistema traz ganhos inesperados, para lá do seu merecimento e mesmo para lá das suas expectativas ou desejos, tornam-se "especuladores", objecto do ódio da burguesia a quem o inflacionismo empobreceu, não menos que do proletariado. À medida que a inflação prossegue e o valor real da moeda flutua desmedidamente de mês para mês, todas as relações duradouras entre devedores e credores, que constituem o mais importante pilar do capitalismo, tornam-se de tal forma desordenadas que praticamente perdem o sentido; e o processo de obtenção de riqueza acaba a degenerar num jogo de azar, numa lotaria.

Lenine tinha de facto razão. Não há meio mais subtil, mais seguro de derrubar a base existente da Sociedade do que adulterar a moeda. O processo arregimenta para o lado da destruição todas as forças ocultas das leis económicas, e fá-lo de tal forma que nem um num milhão de homens é capaz de o diagnosticar.

Nas últimas fases da guerra, todos os governos beligerantes puseram em prática, seja por necessidade ou por incompetência, aquele que poderia ser o plano deliberado de qualquer bolchevique. Mesmo agora, com a guerra terminada, a maioria continua, por fraqueza, com as mesmas más práticas. Mas além disso, os governos da Europa, sendo muitos deles, neste momento, imprudentes nos seus métodos, além de fracos, tentam orientar a indignação popular contra as consequências mais óbvias dos seus métodos no sentido da classe tida como "especuladora”. Estes "especuladores" são, genericamente, a classe empreendedora dos capitalistas, ou seja, o elemento activo e construtivo de toda a sociedade capitalista, que num período de rápida subida de preços não pode deixar de enriquecer rapidamente, quer o deseje, quer não. Se os preços estão continuamente a subir, qualquer negociante que tenha comprado para constituir inventário ou que possua propriedades, instalações e equipamento obtém inevitavelmente lucros. Assim, ao dirigir o ódio contra esta classe, os governos europeus estão a facilitar o processo fatal que a mente subtil de Lenine tinha conscientemente concebido. Os “especuladores” são uma consequência e não uma causa do aumento dos preços. Ao combinar um ódio popular pela classe dos empreendedores com o golpe já dado na segurança social através da perturbação violenta e arbitrária dos contratos e do equilíbrio de riqueza vigente - um resultado inevitável da inflação -, estes governos estão, rapidamente, a tornar impossível a continuação da ordem social e económica do século XIX. Mas não têm qualquer outro plano para a sua substituição.

Neste famoso excerto de 1919, John Maynard Keynes (1883-1946), um dos economistas e conselheiros políticos mais influentes da primeira metade do séc. XX, descreve com esplêndida persuasão e admirável brevidade os efeitos nefastos das políticas inflacionistas implementadas vezes sem conta por quase todos os governos ao longo da História.

Este excerto é parte do livro The Economic Consequences of the Peace (1919), obra que catapultou Keynes para a fama pela sua crítica ao Tratado de Versalhes assinado após a Primeira Guerra Mundial. O texto foi depois também incluído na sua compilação Essays in Persuasion (1931), recentemente editada em Portugal.

Tradução: Patrícia Paixão

Revisão: Francisco Silva

Narração: Tiago Soares

Instituto +Liberdade

Em defesa da democracia-liberal.

  • Facebook
  • Twitter
  • Youtube
  • Instagram
  • Linkedin

info@maisliberdade.pt

© Copyright 2021 Instituto Mais Liberdade - Todos os direitos reservados

Este website utiliza cookies no seu funcionamento

Estas incluem cookies essenciais ao funcionamento do site, bem como outras que são usadas para finalidades estatísticas anónimas.
Pode escolher que categorias pretende permitir.

Este website utiliza cookies no seu funcionamento

Estas incluem cookies essenciais ao funcionamento do site, bem como outras que são usadas para finalidades estatísticas anónimas.
Pode escolher que categorias pretende permitir.

Your cookie preferences have been saved.